A Inteligência Artificial vai Roubar os Nossos Empregos… e a Nossa Capacidade de Pensar?

A Inteligência Artificial vai Roubar os Nossos Empregos… e a Nossa Capacidade de Pensar?

Augusto Maria Iglesias

Há uns dias, enquanto tomava café num daqueles lugares onde o cheiro a torrada queimada se mistura com o barulho dos talheres, ouvi dois estudantes a discutir. Um deles, com o telemóvel na mão e os olhos vidrados no ecrã, dizia ao outro, “Para quê perder tempo a pensar se a inteligência artificial dá-me a resposta em dois segundos?” O outro, mais velho, talvez por isso mais teimoso, respondeu com um sorriso: “Sim, mas e depois? Quando a máquina não estiver lá, o que te resta?”

A cena ficou-me na memória. Não pela novidade, afinal, já todos ouvimos variantes deste diálogo, mas pela urgência que lhe subjaz. Vivemos numa época em que a inteligência artificial não é só uma ferramenta, é uma tentação constante, a promessa de que podemos saber sem aprender, escrever sem refletir, decidir sem duvidar. Mas, como nos alertam estudos recentes do MIT, de Harvard e até de Oxford, essa promessa tem um preço. E o preço, ironicamente, é a própria coisa que nos torna humanos, a nossa capacidade de pensar.

O Que Perdemos Quando a Máquina Pensar Por Nós

O estudo do MIT Media Lab, liderado por Nataliya Kosmyna, é denunciativo. Durante meses, acompanhou jovens a escrever ensaios com e sem ajuda da inteligência artificial. Os resultados? Quem usou a inteligência artificial não só produziu textos mais pobres e repetitivos, como mostrou uma atividade cerebral reduzida, menos conexões neurais, menos memória ativa, menos criatividade. “Era como se o cérebro desligasse o piloto automático e deixasse de aprender”, explicou Kosmyna. O mais assustador? Ao fim de algumas semanas, muitos participantes nem sequer se davam ao trabalho de editar o que a máquina lhes dava. Copiavam, colavam, entregavam. “Just give me the essay”, tornou-se o seu mantra.

Mas o problema não é a tecnologia em si. O problema é o que deixamos de exercitar quando a usamos sem crítica. O cérebro, como qualquer músculo, atrofia-se se não for desafiado. E a inteligência artificial, quando usada como muleta, rouba-nos o esforço de conectar ideias, de errar, de recomeçar, que é, afinal, como se aprende.

A Ilusão da Eficiência

Há aqui uma ironia cruel, a inteligência artificial foi criada para nos tornar mais eficientes, mas está a tornar-nos mais preguiçosos. E a preguiça intelectual, ao contrário da física, não se resolve com uma sesta. Os estudantes que dependem de chatbots para fazer trabalhos não estão só a enganar o sistema, estão a enganar-se a si próprios. Porque o que fica depois do “Ctrl+C, Ctrl+V”? Um vazio. Uma sensação de “já o fiz, mas não sei como”.

E não é só nos estudos. Programadores que usam a inteligência artificial para escrever código sem o entenderem, jornalistas que geram artigos sem os investigar, gestores que tomam decisões baseadas em algoritmos sem questioná-los… Todos eles estão a delegar não apenas o trabalho, mas a responsabilidade de pensar.

O Que a Máquina Não Pode Dar-Nos

Há coisas que nenhum algoritmo consegue replicar. A curiosidade que nos faz levantar à noite para ler um livro. A intuição que nos diz que uma fonte não é confiável. A empatia que nos permite escrever não só com correção, mas com alma. “Os ensaios do grupo que usou a inteligência artificial foram tecnicamente competentes, mas soulless”, disseram os professores que os avaliaram. “Soulless”. Essa palavra deveria doer-nos.

A inteligência artificial não tem memória afetiva. Não sabe o que é escrever com as tripas, como dizem no norte. Não entende o peso de uma palavra escolhida depois de horas de dúvida. E, acima de tudo, não nos pode ensinar a ser resilientes. Porque a resiliência não se constrói com atalhos. Constrói-se com o suor de quem tenta, falha e insiste.

E Agora?

Não estou a propor que se queime a inteligência artificial. Estou a propor que a usemos como o que ela é, uma ferramenta, não um substituto. Que a tratemos como tratamos um martelo, útil para pregar um prego, mas inútil para desenhar um quadro.

Tem razão quem diz que precisamos de “legislação ativa e testes rigorosos” antes de atirar estas tecnologias para as salas de aula. Mas mais do que leis, precisamos de um pacto connosco mesmos, o de não desistir do esforço de pensar.

O que verdadeiramente me assusta não é a inteligência artificial em si, mas a cultura da pressa e da facilidade que ela ajuda a normalizar. Vivemos obcecados com a ideia de que tudo deve ser imediato, sem atrito, sem suor, e a inteligência artificial, com a sua eficiência sedutora, alimenta essa ilusão perigosa, “Para quê perder tempo a pensar, se a resposta aparece em três segundos?”

O problema é que o saber que não exige esforço, não se fixa. Quando deixamos de lutar pelas respostas, deixamos também de lhes atribuir valor. E, sem darmos conta, perdemos algo ainda mais grave, a capacidade de fazer as perguntas certas, essa sim, a essência do pensamento crítico, o que nos distingue das máquinas. Porque de nada serve ter todas as respostas do mundo, se não soubermos sequer o que perguntar.

Então, o que fazer? Não se trata de rejeitar a inteligência artificial como um ludita nem de a idolatrarmos como a solução para tudo, trata-se de usá-la com inteligência e propósito.

No trabalho, delega à máquina o que ela faz melhor, automatizar, organizar, sugerir. Mas reserva para si o que só um ser humano consegue, criar, liderar, dar significado. Na aprendizagem, use a inteligência artificial como um assistente, não como um atalho, verifique factos com a inteligência artificial, mas não deixe que ela lhe roube o processo de refletir, duvidar, construir conhecimento. E na vida, desconecte-se. De vez em quando, feche os ecrãs, leia um livro sem interrupções, escreva à mão, perca-se numa rua desconhecida sem GPS. Exercite a sua independência mental. Porque a melhor ferramenta que temos não é a inteligência artificial, é o nosso próprio cérebro. E, como qualquer músculo, se não o usar, atrofia.

“A máquina pode dar-te uma resposta. Mas só tu podes dar-lhe significado.”

Da próxima vez que sentir a tentação de pedir à inteligência artificial que faça o trabalho por si, pare. Respire. Pegue num lápis. E lembre-se, o que vale a pena aprender, vale a pena lutar por aprender.

Porque no fim de contas, a única inteligência que importa é a nossa.

A minha opinião? Um desafio, não um apocalipse.

A inteligência artificial não é o inimigo. O inimigo é a passividade. Se a usarmos para nos tornarmos mais preguiçosos, sim, ela vai-nos empobrecer, cognitiva e profissionalmente. Mas se a usarmos para amplificar o que já somos, pode ser a melhor aliada que a humanidade já teve.

No fundo, a questão não é “a inteligência artificial vai roubar-nos algo?”, mas “vamos deixar que isso aconteça?”.
E o leitor, estás disposto a lutar pela sua cabeça? Ou vais deixar que um algoritmo decida por si?

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